Trabalho e espiritualidade

por Wesley Cavalheiro

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. Charles Chaplin

As palavras acima são trecho de um discurso proferido pelo personagem de Charles Chaplin no filme ‘O Grande Ditador’ em 1940 (já a figura de ilustração é de outro filme, ‘Tempos Modernos’). Considero Chaplin um profeta do nosso tempo. Na primeira metade do século passado, ele, na contramão da tendência dominante, alertava a respeito de se considerar a ciência e a tecnologia como a solução por excelência dos problemas humanos. Hoje, passados mais de setenta anos do filme de Chaplin e seu discurso, vemos a sociedade, seja consciente ou inconscientemente, valorizar aspectos colocados em segundo plano durante a época da modernidade. Elementos como justiça social, compaixão, bem estar, convivência saudável com a natureza entre outros seriam consequências do desenvolvimento cientifico e tecnológico. A frustração nos leva a alternativas para esta crença. Mesmo as religiões, depositárias e guardiãs ‘das verdades definitivas’, foram afetadas, posto que ‘suas verdades’, niveladas à ciência e à tecnologia no sentido de ‘salvadoras’ das mazelas da humanidade, também decepcionaram ao promoverem discriminações, guerras, sectarismos, escravizações e miséria.

Billy Graham, discursando no fórum TED (Technology, Entertainment and Design) em 1998, falava sobre três grandes problemas da humanidade que a tecnologia não conseguiu resolver: o fim da maldade, o fim do sofrimento e o fim da morte. A busca por soluções a estes problemas e suas decorrências leva à eleição de valores alternativos para a eliminação do maior dos canceres do ser humano: a miséria da alma e suas metástases.

Como não existe ‘mundo do trabalho’ fora deste mundo, ou seja, sem pessoas, este tem sido fortemente influenciado por esta busca. As organizações, atualmente, mais do que dar em troca do trabalho o ‘pão’, veem-se desafiadas a proporcionarem um sentido para a vida de seus colaboradores (os funcionários até então chamados de empregados passam a ter outra consideração); são desafiadas a promoverem o desenvolvimento pessoal em sua inteireza (competências técnicas, competências emocionais e perspectivas de progresso financeiro e social); e também a desempenharem – e mostrarem – um papel de responsabilidade social (mais do que gerar lucros para proprietários e acionistas, explicitarem a dimensão de sua contribuição ao desenvolvimento social). Na luta para atender esta demanda várias ferramentas têm sido utilizadas – do apoio a ações voluntárias até doações financeiras, passando por financiamentos, patrocínios e benefícios.

Nem todas as organizações já alcançaram o resultado esperado. Particularmente penso que isto se dá por uma série de fatores, os quais podem ser sintetizados em três fontes: 1) as ações devem ser sustentáveis, ou seja, o faturamento / arrecadação da organização deve ser suficiente para ‘bancá-las’; 2) deve ser explicitado que as ações são estradas de via dupla, ou seja, é esperado que o colaborador veja a organização como mais do que a fonte de seu sustento, mas também como o meio pelo qual ele expressa sua missão pessoal no contexto de sua época e local e assim obtenha um desempenho bem maior do que o ‘suficiente’; e 3) as ações são desenvolvidas somente como estratégia de marketing e propaganda e não de forma a incorporar efetivamente na empresa os valores difundidos em documentos e quadros. Como disse Winston Churchill, “pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos por todo tempo”.

No meu ponto de vista, as organizações que têm obtido mais resultados positivos são aquelas que promovem as relações interpessoais, seja no âmbito interno, seja com fornecedores, clientes e agentes reguladores, se baseando na espiritualidade. Esta espiritualidade é o conjunto de virtudes do espírito humano – como o senso de missão, o senso de pertencimento, o zelo, a compaixão, a paciência, tolerância, a capacidade de perdoar, o contentamento, o senso de responsabilidade, senso de harmonia, dentre outras, que são comuns a todas as pessoas, independente da religião que professam (aliás, a religião perfeita é aquela que proporciona a seus fiéis o desenvolvimento de sua espiritualidade, já dizia o apóstolo bíblico Tiago [1])

Os grandes desafios das organizações no mundo contemporâneo para sua sobrevivência, seja qual for a sua natureza (empresas, governamentais, assistenciais, com ou sem fins lucrativos, religiosas, etc.), é compreender apropriadamente o que seja ‘espiritualidade’, diferenciar ‘espiritualidade de religião’ e permear seu ambiente com sua prática. Aliás, do que tenho visto, há organizações que se impõem desafios ainda maiores: sua razão de existir é a propagação da espiritualidade, sendo seus produtos e serviços os meios dos quais se utilizam para realizá-la.

Medite: 1) Como você desenvolve sua ‘espiritualidade’? 2) Como você pode contribuir para o desenvolvimento da espiritualidade nos ambientes que frequenta e com as pessoas que se relaciona? 3) Como sua religião pode promover a espiritualidade?

Palavras de sabedoria: “[os] que mais resultados positivos têm obtido são … [os] que promovem as relações interpessoais… baseadas na espiritualidade:.”

Sabedoria da palavra:A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo (Bíblia, RA, Tiago 1:27)

Viva compaixão

Wesley W. Cavalheiro é Coach Pessoal, Profissional, Executivo, e Corporativo, com Certificação Internacional e Treinador Comportamental formado pelo Instituto de Formação de Treinadores (www.ift.net.br). Contatos: <www.Lumen4You.net>


[1] Bíblia, RA, Tiago 1:27: A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.

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