A roda do contentamento

por Wesley Cavalheiro

Contentamento é um estado de espírito de plenitude. Considerando que as circunstâncias que nos cercam estão em constante mudança, o contentamento está em contínuo desafio para manter-se. Portanto, é um dos artigos mais raros no mundo contemporâneo. É raro encontrar uma pessoa candidamente contente. O fácil é encontrar uma pessoa com alto grau de descontentamento. São várias as causas do descontentamento – ou da falta de contentamento. Aliás, há quem diga que é o descontentamento, a insatisfação, que move o progresso. A busca para se saciar de recursos, de conhecimento, de saúde, segurança, estética, pertencimento, afeto, amor, realização, enfim, dos vários ingredientes de que é feita nossa existência é que têm movido a humanidade. É um mover sem fim: uma roda de moto contínuo.

Entretanto, penso que a questão pode ser vista de diferentes maneiras, cada qual segundo a motivação que direciona o contentamento / descontentamento Certamente encontraremos motivações sadias e as motivações nocivas.

Um escritor bíblico orienta “Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Bíblia , RA, Hebreus 13:5). Jesus, por sua vez, orienta: “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Bíblia , RA, Ev. Mateus 6:33), ou seja, Jesus estimula a busca por uma satisfação e promete um contentamento pleno: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Bíblia , RA, Ev. Mateus 7:7).

Cada religião expressa este assunto segundo um ponto de vista peculiar, seja por convicção doutrinária, seja por conveniência. Entretanto, o entendimento de princípios espirituais universais nos indica que o contentamento é, e pode ser, alcançado, por meio de ações propositais e conexas.

Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”, disse Jesus (Bíblia , RA, Ev. João 10.10). A abundância de algo, segundo Jesus, não é o acúmulo deste algo, mas sim o seu fluxo contínuo e intenso pela vida.

A abundância, que leva ao contentamento, é o resultado da conjugação simultânea de quatro verbos: identificar, solicitar, agir e agradecer.

A abundância e o contentamento são um círculo virtuoso, que deve ser colocado em movimento. A habilidade em vivenciar a abundância é proporcional à velocidade com que o círculo gira na vida. Dois fatores determinam a velocidade: o acelerador e o freio de mão. A abundância é uma questão de atitude em relação à conjugação dos quatro verbos.

A vida, em seu sentido filosófico e espiritual, é potencialmente próspera e abundante. Em cada uma das suas dimensões essa prosperidade e abundância se manifestam de determinada forma. No entanto, tudo começa em como nos posicionamos diante dela (a vida), das pessoas e de Deus, e em como nos sintonizamos nestes relacionamentos e nos tornamos participantes no contentamento e na abundância dos que se conectam conosco.

Identificar

Nós nos tornamos aquilo que repetidamente dizemos para nós mesmos. O que pessoas e organizações declaram sobre si, para si mesmos e para os outros, sobre sua identidade, sobre suas visões, sobre seus sonhos, sobre seus projetos, terá influencia fatal sobre seus resultados.

O universo reconhece e respeita o livre arbítrio humano, que reflete a autoridade de cada pessoa para decidir sobre a sua própria vida. William Ernest Henley expressou com maestria esta condição em seu poema Invictus:

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu – eterno e espesso,
A qualquer deus – se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei – e ainda trago
Minha cabeça – embora em sangue – ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda – eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

Solicitar

Expressar os resultados que se quer alcançar é fundamental. Sem esta expressão, as chances de se obter os resultados são bem pequenas. Expressar os resultados implica em delinear metas específicas, mensuráveis, atingíveis, realizáveis e com tempo definido; em elencar as condicionantes envolvidas; em traçar os passos necessários para alcançá-las; e por fim, em compartilhar com as partes interessadas de modo a obter cumplicidade. Solicitar, neste contexto, é mais do que pedir. É pedir com sabedoria.

Agir

Agir é empreender; é se lançar à execução das ações planejadas e compartilhadas; agir é arriscar! É vencer o medo, é ousar e, acima de tudo, confiar! Confiar nos fundamentos e nos valores pessoais e corporativos.

Arriscar depende sempre do que se tem a ganhar e a perder. O grau de risco é uma função: entre a(s) ameaça(s) envolvida(s) e o quanto estamos preparados para ela(s) – avaliando o nosso grau de vulnerabilidade e as consequências decorrentes, caso a(s) ameaça(s) aconteça(m). Agir é confiar na preparação.

Agradecer

Agradecer é compartilhar com as partes envolvidas os resultados alcançados. Há um poder no agradecer e no compartilhar, especialmente se o é feito contínua e frequentemente, posto que a vida é alimentada pelo fluxo constante de bens, virtudes e energias, em suas mais variadas e diversas formas. Assim, ter o senso de gratidão pelas pequenas, médias e grandes conquistas e dádivas é a chave para que o contentamento flua constante e continuamente.

Uma das formas críticas das virtudes é o perdão – a si mesmo, aos outros, e saber receber dos outros –, posto que o ato de perdoar embute desembaraços de restrições emocionais e espirituais que limitam o fluxo dos elementos que nos trazem plenitude.

A gratidão pode ser expressa nas múltiplas e variadas formas dos sentimentos, palavras e ações.

Tipos de pessoas resultantes da combinação da conjugação dos quatro verbos

O círculo do contentamento possui dois hemisférios: o DAR e o RECEBER. Relativamente a estes dois lados, existem quatro tipos de pessoas:

  • SOBERBAS: têm problemas em receber. São capazes de prestar favores a outros, mas não gostam de receber nada de ninguém.
  • EGOÍSTAS: sabem receber, mas não querem doar. Só querem o “venha a nós…”
  • ESTÉREIS: não dão nem recebem. São os eremitas emocionais… nos afetos, nas finanças, etc.
  • PRÓSPERAS: tanto doam quanto recebem. São capazes de gerar prosperidade para si e para aqueles com quem se relacionam. Infelizmente, são poucas as pessoas deste tipo.

Medite: 1) O quanto você se avalia em relação aos quatro verbos da “roda do contentamento”? 2) Em qual dos quatro verbos poderia haver esforço concentrado para alavancar o “giro” da roda e o consequente progresso dos demais verbos? 3) Em sua opinião, como o perdão pode ser fator de importância para o contentamento?

Palavras de sabedoria: “A abundância de algo… não é o acúmulo deste algo, mas sim o seu fluxo contínuo e intenso pela vida.”

Sabedoria da palavra:Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças (Bíblia, RA, Filipenses 4:6)

De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento (Bíblia, RA, 1 Timóteo 6:6)

Viva compaixão

Wesley W. Cavalheiro é Coach Pessoal, Profissional, Executivo, e Corporativo, com Certificação Internacional e Treinador Comportamental formado pelo Instituto de Formação de Treinadores (www.ift.net.br). ‘Seguir’ e contatos: <www.Lumen4You.net>

Um comentário sobre “A roda do contentamento

  1. “A roda do Contentamento”, amei este artigo, vou estar trabalhando este assunto na próxima oportunidade, no grupo de mulheres. E muito importante termos o discernimento do nosso contentamento ele é motivado sobre quais causas?
    O que faz girar a minha roda do contentamento, com muita força e o verbo AGRADECER. O que mais chamou -me atenção foi o primeiro tipo de pessoa.
    Talvez alguém possa estranhar, mais como? não ter um discernimento real da pessoa soberba? pensava que, o soberba não gostar de receber nada de alguém. Na minha ótica o soberbo não dão , nem recebem; mais a partir da meditação do circulo do contentamento, ficou mais claro os dois hemisférios o Dar e Receber. E muito importante a busca do conhecimento, quando pensamos que sabemos tudo, no tudo tem algo que não conhecemos.
    O B R I G A D A
    Mestre Wesley.

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