Adivinhação, intuição ou percepção

por Wesley Cavalheiro

Tentar conhecer o futuro é uma função biológica, ou seja, é uma necessidade ligada ao instinto de sobrevivência. Conhecendo-se o futuro antecipadamente, pode-se garantir a sobrevivência por mais tempo”. – Raul Grumbach

Buscar conhecer o futuro é algo que pertence à natureza humana. Nossos ancestrais da antiguidade buscavam os oráculos. São exemplos o Oráculo de Apollo em Delphos, na Grécia, e o sacerdócio no Egito Antigo. Israel também tinha seus oráculos: o Urim e Tumim[1], e seus os profetas[2]. Na Idade Média, magos, bruxos e alquimistas descreviam suas visões sobre o futuro com base em profecias e especulações. Lidar com o desconhecido leva as pessoas, muitas vezes, para o misticismo: a religião em seu mais apurado e intenso estágio de vida. O iniciado que alcançou o “segredo” é chamado um “místico”. Muitos cristãos – baseados na palavra de Jesus de que o Espírito Santo ‘os guiaria a toda a verdade’[3] e na de Paulo, o apóstolo, que Ele concede dons aos homens, dentre estes o de profecia [4]– buscam a predição e a orientação de toda a sorte de situações do cotidiano: com quem vão casar, qual emprego devem se comprometer, em que igreja vão congregar, etc. Creio firmemente na presença e na participação do Espírito de Deus na vida dos fiéis guiando-os e orientando-os, entretanto, para mim, em certas práticas são mais uma espécie de ‘paganismo cristão’, que favoreceria mais a crença supersticiosa do que a demonstração de uma fé madura.

Há um grande dispêndio de energia tentando conhecer o futuro. Dos adivinhos, quiromantes, astrólogos, etc., aos ‘neoprofetas’ – os que falam em nome de Deus sobre os acontecimentos futuros. É gasta energia por parte dos previsores e, às vezes, muito mais energia por parte dos que buscam previsões. Muito dessa energia poderia ser economizada se seguíssemos o conselho de Jesus e “discerníssemos os sinais”. : “Sabeis, na verdade, discernir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?” (Jesus, o Cristo – Bíblia, RA, Mateus 16.3)

Na modernidade, a ciência começa a influenciar a previsão de futuro. Maupertios, um filósofo, matemático e astrônomo francês, em suas “Cartas sobre o progresso da ciência”, é o primeiro (que se tem conhecimento) a ponderar sobre a extensão no futuro das tendências do passado. A evolução deste pensamento leva ao desenvolvimento da chamada “previsão clássica do futuro”: o futuro é único e certo, sendo um prolongamento da tendência dos fatos atuais.

Uma das abordagens possíveis do conselho de Jesus nos conduz à construção do futuro, e não à sua previsão. Há sinais a nossa volta indicando a probabilidade de futuro para absolutamente tudo o que diz respeito à nossa vida. Nossa relação conjugal dá sinais do futuro; nossos filhos e nossos relacionamentos com eles dão sinais; as organizações dão sinais; as sociedades, os governos, o mundo… o universo dá sinais da existência e da ação de Deus (leia o Salmo 19: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos… ”). A maioria das surpresas que temos é decorrente de não estarmos atentos (ou de estarmos desatentos) aos sinais que nos cercam.

O mundo contemporâneo, em especial o mundo corporativo, valoriza cada vez mais as competências não lógicas, racionais e dedutivas das pessoas, ou seja, a capacidade de intuir, de sentir, de se emocionar e de controlar emoções, de acreditar, de motivar, etc. Entretanto, penso que a capacidade e a sensibilidade de discernir movimentos, pequenos acontecimentos, seja a chave para perceber as tendências de configuração de novos cenários.

Ao contrário do que muitos pensam, a capacidade de percepção (e a sensibilidade associada a ela) não é um elemento nato, um dom com o qual as pessoas nascem. É desenvolvida ao longo da vida. A diferença entre as pessoas é que algumas a desenvolvem com mais facilidade, enquanto que outras despendem mais esforço. Malcom Gladwell, em seu livro “Blink – a decisão num piscar de olhos”, discorre sobre como este processo se desenvolve: treino… treino… e mais treino… com muito esforço. Não há oráculo ou profeta que supere pessoas apropriadamente preparadas.

Certa vez, efetuando um trabalho na Ilha da Trindade [5] (ilha oceânica à 1200Km da costa do Espírito Santo), li uma frase inspiradora: “Sorte é a conjunção da oportunidade com estar preparado”. Não existe azar. O que acontece é que simplesmente não estávamos preparados para a oportunidade. Similarmente, muito do nosso conformismo expresso na sentença “é a vontade de Deus”, na verdade, é o resultado de não termos discernido os sinais e, assim, não termos nos preparado para os acontecimentos.

O sucesso no mundo contemporâneo está destinado a pessoas que se esforçam em desenvolver sua capacidade de perceber os sinais.

Medite: 1) o que na minha vida poderia estar sendo diferente se eu tivesse “lido” os fatos e acontecimentos de forma diferente? 2) o que está ocorrendo à minha volta que sinaliza uma decisão, uma ação, a ser tomada de forma a gerar um futuro desejável? 3) Como posso desenvolver a capacidade de percepção dos sinais que se manifestam à minha volta?

Palavras de sabedoria: “Sorte é a conjunção da oportunidade com estar preparado.”

Sabedoria da palavra: “Sabeis, na verdade, discernir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?” (Jesus, o Cristo – Bíblia, RA, Mateus 16.3)

Viva compaixão

Wesley W. Cavalheiro é Treinador Comportamental e Coach Pessoal, Profissional, Executivo, e Corporativo, com Certificação Internacional. Informações e contatos:: <www.Lumen4You.net>.
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[1] Bíblia, RA, Êxodo 28.30; Números 27.21
[2] Bíblia, RA, 1 Samuel 28.6
[3] Bíblia, RA, João 14.26; João 15.26; João 16.13
[4] Bíblia, RA, 1 Coríntios 12.10
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_de_Trindade

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