Receita de ano novo

anonovopor Wesley Cavalheiro

Para você ganhar um ano / não apenas pintado de novo, remendado ás carreiras, / mas novo nas sementinhas do vir-a-ser / novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) … Não precisa fazer a lista de boas intenções / para arquivá-las na gaveta … / nem parvamente acreditar / que por decreto de esperança / a partir de janeiro as coisas mudem… / justiça entre os homens e as nações … / direitos respeitados … Para ganhar um Ano Novo / que mereça este nome, / você, meu caro, tem de merecê-lo, / tem de fazê-lo novo. Eu sei que não é fácil, / mas tente, experimente, consciente. / É dentro de você que o Ano Novo / cochila e espera desde sempre.

Os versos acima fazem parte do poema de Carlos Drummond de Andrade intitulado “Receita de Ano Novo”[1] (de onde tirei o titulo desta matéria). De modo sutil e belo Drummond trás luz sobre a realidade que nos assola ano após ano, ao findar um ano e iniciar um novo ciclo. Ele usa uma expressão fantástica: “decreto de esperança”! Francis Wolf, na matéria “Cidades do Futuro” publicada na imprensa[2], pergunta “O que é o futuro?”. Nela ele diz que cada época traduz o futuro conforme sejam as esperanças e angústias dos indivíduos que nela vivem. Drummond diz que o futuro ano novo está dentro de nós, cabendo a nós fazê-lo acontecer. Aí, o merecemos.

Desejar, trabalhar, lutar, e esperar por condições divinas de vida e de relacionamentos são anseios que têm acompanhado o ser humano desde sempre.

A tradição judaico-cristã idealiza e espera este novo mundo dentro do contexto “de um novo céu e uma nova terra”. Para esta tradição a realidade única e irrefutável é a presença viva, dinâmica, majestosa e esplêndida de Deus “aqui e agora” por meio de Jesus Cristo, seu Filho, e de seu Espírito. O sofrimento, bem como suas causas e consequências são distratores a esta realidade: ocorrências que ocultam, embaçam ou tirem o foco da percepção da presença de Deus; circunstâncias que nos distraem, tiram a atenção do que é, de fato, importante e essencial. A esperança, na concepção desta tradição, portanto, é da ocorrência do dia em que não haverá mais distratores. A esperança, nesta tradição, é que chegará o dia em que serão enxugadas todas as lágrimas; quando não haverá mais dor nem sofrimento; quando a raça humana não estará mais dividida, competindo e guerreando entre si e haverá paz universal; quando a terra se encherá do conhecimento da glória de Deus, como as águas enchem o mar; quando seu Deus, que hoje se manifesta em formas nem sempre claras, estará reunido com sua criação em plena comunhão. Esperam a harmonia de toda a criação com a humanidade e desta com o seu Deus. Esperam pelo dia em que não seja preciso mais campanhas de doações, porque todos terão e estarão saciados de sua fome de comida, de perdão, de reconhecimento, de amor. É essa esperança de união plena e consumada de céu e terra que tem movido gerações no sentido de implantar aqui e agora, cada qual em sua época, os prenúncios que sinalizam essa realidade, ainda por se concretizar, mas viva em seus corações e mentes. Sua missão é desfazer os elementos distratores de modo que as pessoas desfrutem aqui e agora a presença viva e real de seu Criador. Por isso, são inconformadas. Não se conformam, não se acomodam com o engano que é pensar, sentir e viver como se essa presença estivesse distante, inacessível. Para elas, o reino de Deus está presente aqui e agora. Elas consubstanciam os versos de Drummond.

Esperança, para ser esperança, tem que ter fundamentos. Esperança sem fundamentos é desejo ou superstição. “Espero que vá tudo bem”, “espero que tudo dê certo” são expressões que mais expressam vontades do que uma realidade concreta e irrefutável. Esperança, como a concebida pela tradição judaico-cristã, talvez, seja – pelo menos das que eu conheço – a única expressão de esperança que possui fundamentos, pois é fundamentada em vivências milenares da presença do divino, de sua interferência em favor da criação, com manifestações que iluminam mentes, corações, entranhas de pessoas e as circunstâncias que elas vivem.

Loucura? Sim, para os que ainda não tiveram a chance de desfrutar. Realidade e verdade? Sim, para os que têm a oportunidade de desfrutar. Para estes, a vida é:

Sonhar o sonho impossível,
Sofrer a angústia implacável,
Pisar onde os bravos não ousam,
Reparar o mal irreparável,
Amar um amor casto à distância,
Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca.
Essa é a sua missão!

Os versos acima compõem um trecho de uma das canções do musical “Man of La Mancha”[3]. Uma filmagem foi feita em 1972 e, o personagem vivido por Peter O’Toole, Miguel Cervantes / Alonso Quijana / Don Quixote, discutindo sobre ‘realidade’ e ‘ilusão’, expressa: “a maior das ilusões é viver a vida como ela é, e não como deveria ser”.

A esperança nos conduz a vivenciar o que “deve ser”, a despeito de eventos circunstanciais agirem como filtros mostrando-nos outra realidade.

Medite: 1) Qual a sua esperança? 2) Quais os fundamentos da sua esperança? 3) Quais as ações consequentes da sua esperança?

Palavras de sabedoria: “a maior das ilusões é viver a vida como ela é, e não como deveria ser.”

Sabedoria da palavra:No zelo, não sejais remissos; sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor; regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação… (Bíblia, RA, Romanos 12.11-12)

… estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós… (Bíblia, RA, 1 Pedro 2.15)

wesley-caricat1Viva comPara onde você está indo?paixão

Wesley W. Cavalheiro é Coach Pessoal, Profissional, Executivo, e Corporativo, com Certificação Internacional e Treinador Comportamental formado pelo Instituto de Formação de Treinadores. (https://lumen4you.net/agenda/ift/). Contatos: <www.Lumen4You.net/contato>

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