Ser humano e espiritualidade

espiritualidadepor Wesley W. Cavalheiro

Certa vez, vendo um documentário intitulado “Ilha das Flores[1] me deparei com uma bem humorada caracterização da definição de ‘ser humano’: “seres humanos são animais mamíferos, bípedes, que se distinguem dos demais animais mamíferos, como a baleia, ou bípedes, como a galinha, por duas características: telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. O telencéfalo altamente desenvolvido permite armazenar informações, analisá-las, processá-las e entendê-las. O polegar opositor permite o movimento de pinça dos dedos o que por sua vez permite a manipulação de precisão”.

O termo “espiritualidade”, por sua vez, sempre o vi relacionado a religiões. Quanto mais práticas religiosas, mais espiritual a pessoa era considerada.

O documentário “Ilha das Flores” continua com o humor, só que sarcástico, mostrando o quanto o uso das características de ‘ser humano’ apresentadas podem ser um tanto quanto imoral, opressora e, mesmo, irracional.

O comportamento de certos religiosos traz à tona o questionamento da espiritualidade como resultado de ritos e dogmas. Dentre as diversas e diferentes situações que já tive que lidar em meus trabalhos e relacionamentos, alguns dos mais complicados foram com pessoas religiosas: a desonra, a falta de compromisso, as falhas de caráter depunham contra seu testemunho de fé (assim como, não posso deixar de registrar, que algumas das pessoas mais fantásticas que conheci foram ou são religiosas).

Por outro lado, lidei com várias pessoas não religiosas que possuíam um senso e um comportamento em relação à vida e ao próximo que me foram fontes de inspiração e exemplo. Eram ou são pessoas às quais posso chamar de ‘representantes máximos de ‘ser humano’’ tal como definido em “Ilha das Flores”, especialmente o telencéfalo altamente desenvolvido.

Não sou teólogo, tampouco filósofo ou psicólogo. Daí, a minha abordagem sobre o tema é tão somente a de um ser em busca de si mesmo e de sua natureza. Quanto mais me embrenho nesta busca, mais forte fica minha convicção de que a ‘espiritualidade’ seja o que, em última instância, nos caracteriza como seres humanos. É ela que nos diferencia, por fim, das demais espécies. Todo ser humano é, por definição, um ser espiritual. A questão é para onde essa espiritualidade está direcionada. Há um rumo que leva a nos identificarmos mais proximamente com a divindade. Há outra direção que nos leva a sermos seres bestializados. Entre esses dois caminhos há uma gama infinita de possibilidades. Aliás, escrevi em outra matéria[2] que a bestialização da raça humana talvez seja a evidência mais marcante do sinal dos tempos.

Penso que a espiritualidade seja dimensionada por três componentes: o significado, a consciência e as escolhas.

Significado. Para Viktor Frankl[3], muitas neuroses da época moderna dizem respeito não à esfera psíquica, mas à “noógena”(=espiritual). Na base da vida psíquica existe a vontade de significado, quer dizer, o desejo de fazer experiências significativas. A frustração nessa área determina as neuroses noógenas. Para Frankl, a motivação básica do comportamento de um indivíduo é a busca por um sentido para a sua vida, não um sentido para a vida em termos gerais, mas um sentido pessoal para a vida de cada indivíduo, que pode ser escolhido ou mesmo criado. Para isso, é preciso responder à pergunta: “O que existe no mundo que só eu e mais ninguém pode fazer?” Esta pergunta se aplica a toda e qualquer área da nossa vida, seja pessoal, relacional, profissional, etc.

Consciência. Estar consciente é ter a capacidade de percepção dos momentos que constituem o nossa vida, identificando neles as demonstrações de quem realmente somos, as manifestações dos nossos desejos e dos nossos medos mais profundos, ou seja, o que, de fato, nos move e determina quem somos. Para Riso e Rudson[4], a conscientização dos mecanismos da nossa personalidade, do que nos faz agir e reagir em nossos relacionamentos, família e trabalho, é o que nos leva à possibilidade de encontro com a nossa essência, ao que há de divino em cada um de nós. “Quando conseguimos notar o que estamos fazendo e apreender completamente e sem julgamentos nosso estado atual, os velhos padrões começarão a ruir”, afirmam.

Escolhas. Segundo Albert Camus[5], o que somos hoje é o resultado de nossas escolhas e decisões feitas até hoje. O que seremos daqui há meses e anos será o resultado de nossas escolhas e decisões feitas a partir de hoje. Nem tudo que nos acontece é resultado de nossas escolhas. Existem as fatalidades. Entretanto, sempre nos restará optar sobre como reagiremos ao que ocorreu ou ocorrerá. A escolha direciona o resultado da simbiose entre o significado que emprestamos a nós mesmos e aos eventos e a consciência de quem somos; determina se nos aproximamos da divindade ou se nos tornamos mais bestializados.

Na matéria acima referenciada, escrevi: “Os demônios já não são invisíveis: estão em todos os lugares, estruturados em ossos, revestidos de carne e pele, caminhando pelas ruas, dentro dos transportes públicos e automóveis, nos escritórios, nos locais de lazer, e, não raro, nas igrejas. Propalando fé, equilíbrio, sucesso, bem estar, superação, harmonia, justiça, merecimento, felicidade, vitória, etc. Estão sempre voltados para si mesmos, primando pelo que lhe trás conforto e bem estar, a prosperar seu próprio império, empenhados por fazer prevalecer suas próprias convicções, e fazendo discípulos. Profanam o lugar mais santo que pode existir: sua própria a alma – Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? … o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado[6] , disse Paulo, o apóstolo. Ocupam–na com a autoindulgência destronando o Espírito de Deus que mantém viva a presença do divino.” Em suma, lamentavelmente vivemos a época em que a religiosidade tem afastado as pessoas da divindade, dando margem a afirmativas como “Deus não existe”, constante no vídeo “Ilha das Flores”, enquanto o pensamento deveria ser o contrário. Um pensamento que remeta a Jesus, o Cristo, e sua época. Ele é a espiritualidade em sua mais pura expressão: alta e extremada consciência de sua pessoa, de seu papel e de seu significado refletida em decisões e escolhas voltadas para o bem maior e de todos. Em contraponto, há uma elite extremamente religiosa, defensora de rituais e dogmas autofágicos, voltados para si mesmos e que se bastavam a si próprios.

A opção por ser um ‘ser humano’ autêntico, puro, é realizada por meio de significados apropriados, consciência da própria natureza e escolhas convergentes à natureza divina. Isso é ser espiritual. No caso das organizações, como elas são feitas por pessoas, sua espiritualidade dependerá, consequentemente, da manifestação de espiritualidade de seus componentes.

Medite: 1) Qual(is) o(s) significado(s) da sua vida? 2) Qual o grau de consciência de si mesmo, de seus desejos mais profundos, bem como de seus medos mais profundos, em cada momento de seu dia a dia? 3) Qual a direção que sua(s) escolha(s) te levam?

Palavras de sabedoria: “A opção por ser um ‘ser humano’ autêntico, puro, é realizada por meio de significados apropriados, consciência da própria natureza, e escolhas convergentes à natureza divina. Isto é ser espiritual.”

Sabedoria da palavra:sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?… o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado. (Bíblia, RA, 1 Coríntios 3.16-17).

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Wesley W. Cavalheiro é Coach Pessoal, Profissional, Executivo, e Corporativo, com Certificação Internacional e Treinador Comportamental formado pelo Instituto de Formação de Treinadores (https://lumen4you.net/agenda/ift/). Contato: <www.Lumen4You.net/contato>

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