Indo para o inferno com Ted Haggard

3 portas do inferno― O que eu aprendi sobre a Graça e Redenção através da minha amizade com um pária cristão.

por Michel Cheshire*

Eu não tinha planos de me ocupar com Ted Haggard. Afinal de contas, eu tenho acesso ao Google e a uma Bíblia. Eu ouvi falar do que ele fez e sabia que era errado. Eu vi os vídeos da notícia e o documentário da HBO sobre a sua vida depois de sua queda. Eu sinceramente me senti mal por ele, mas achei que ele provocou a sua própria ruína. Quando o assunto veio com outros que eu conheço no ministério, poderíamos fingir tristeza, mas dentro de nós não poderíamos nos importar menos. Um amigo disse que ele iria entender mais se Ted tivesse pecado apenas com uma mulher. Eu concordei com ele na época. É incrível como eu tenho muito mais misericórdia para com as pessoas que lutam com pecados que eu entendo. Quanto mais os pecados deles são distantes de minhas próprias lutas pessoais, mais crítico e insensível me torno. Eu não me orgulho disso. É exatamente onde eu estava naquele momento na minha caminhada. Mas tudo mudou em uma breve tarde.

Comer a nós mesmos

Um tempo atrás eu estava tendo um almoço de negócios em um bar de esportes na área de Denver com um amigo próximo que era ateu. Ele é um grande cara e um pensador muito profundo. Durante o almoço, ele apontou para a grande tela da televisão na parede. Ela estava sintonizada em um canal que estava repassando a queda de Ted Haggard. Ele apontou o dedo para a TV e disse “Esta é a razão pela qual eu não vou me tornar um cristão. Muitas das coisas que você diz, Mike, fazem sentido, mas isto é o que me mantém longe”.

Isto aconteceu bem depois de que a reportagem tinha começado, então eu tive que olhar para a tela para ver a respeito do que meu amigo estava falando. Achei que ele estava se referindo à hipocrisia de Ted. “Ei, cara, nem todos nós fazemos coisas como estas”, eu respondi. Ele riu e disse: “Michael, você acabou de provar meu ponto de vista. Veja, o cara pediu perdão há muito tempo atrás. Até sua esposa e filhos permaneceram com ele e o perdoaram, mas todos vocês cristãos ainda parecem odiá-lo. Vocês não podem perdoá-lo e o deixaram de costas para as suas boas graças. Toda vez que você fala comigo sobre Deus, você explica que ele vai me aceitar como eu sou. Você diz que ele perdoa todas as minhas falhas e irá restaurar minha esperança, e enquanto eu ficar fora da igreja, você diz que Deus quer me perdoar. Mas esse cara caiu enquanto ele era um de vocês, e a maioria de vocês ainda está preconceituosa para com ele.” Em seguida, ele proferiu palavras que me deixou cambaleando: “Vocês cristãos comem a si mesmos. Sempre comeram. Sempre comerão.”

Mudança de coração

Ele estava atrasado para uma reunião e eu tinha que partir. Eu, porém, mal conseguia me mover. Eu olhei a TV e li as legendas de como um conhecido líder religioso manteve pá de terra sobre um homem que admitiu que estava imundo. E, naquele momento, meu coração começou a mudar. Eu comecei a me distanciar de minhas duras declarações anteriores e tentei entender o que Ted e sua família devem ter passado. Quando eu trouxe o assunto para outros homens e mulheres que eu amo e respeito, a simples menção do nome de Haggard tornou nossa conversa tóxica. Suas reações eram viscerais.

Por favor, entenda, isso não é tão somente minha experiência. Pesquise no Google o seu nome e leia o que é dito sobre ele nos círculos cristãos. A maioria dos cristãos diz que Deus pode perdoá-lo, mas quase universalmente pessoas concorda que Deus nunca vai usá-lo novamente. Quando pressionei com a pergunta: “Por que Deus não pode ainda usar Ted?” eu fui descartado como tolo ou bobo. A maioria dessas pessoas ficou furiosa e exigiu que eu mudasse de assunto. Talvez eles vissem algo que eu não estava vendo, mas esta resposta pareceu estranha. Afinal, pensava eu, Jesus restaurou Pedro depois que ele negou a Cristo. Isso é uma coisa muito grande. E o que dizer da Escritura que nos ensina que os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis? Então eu senti que precisava encontrar com Ted por mim mesmo. Então, mandei meu assistente localizá-lo e agendar um almoço. Eu moro fora de Denver e ele estava morando em Colorado Springs, um pouco mais de uma hora de distância. Perfeito!

Trocamos uns poucos e-mails e acertamos com uma data e um restaurante. Eu levei dois homens da minha equipe, e nós o encontramos para o almoço. No caminho para lá eu imaginava como ele agiria. Ele estaria reservado? Triste? Zangado ou distante?

Surpreendido pela amizade

Em menos de cinco minutos de conversa com Ted, eu percebi uma verdade horrível – eu gostei dele. Ele foi brutalmente honesto sobre seus fracassos. Ele estava feliz por que as únicas pessoas que falariam com ele agora eram os verdadeiramente quebrados e feridos. Durante nossa conversa, uma senhora se aproximou dele. Ele imediatamente entrou em “modo pastor” e cuidou dela. Lá no meu íntimo, Deus estava me ensinando que a verdadeira salvação é um processo contínuo. Passamos duas horas juntos e decidimos manter contato. Comecei a telefonar e fazer perguntas relacionadas à igreja. Ele possui uma riqueza de sabedoria. Ele até mesmo tem uma igreja em crescimento na mesma cidade que o conhece por seus maiores fracassos. Eu pensei que era um forte, um plantador de igreja! Mas Deus realmente está fazendo com que sua igreja cresça. Eu conheci sua maravilhosa esposa, Gayle. Ela é uma professora com incrível de graça e uma das minhas heroínas. Quando eu crescer eu quero ser Gayle Haggard. E assim me tornei amigo íntimo de Ted Haggard.

Mas, então, a coisa mais engraçada começou a acontecer comigo. Alguns cristãos com quem eu me encontrava me disseram que iriam se afastar de mim se eu continuasse me relacionando com Ted. Várias pessoas da minha igreja disseram que iriam sair. Sério? Será que ele tem lepra? Será que ele vai me infectar? Nós somos amigos. Nós não estamos namorando! Mas, no final, me disseram que a minha voz como pastor e autor seria manchada se eu continuasse a despender tempo com ele. Eu achei isto revoltante. Não só porque vi como as pessoas podem ser tão pequenas, mas porque eu tenho um relato direto de Ted e Gayle de como eles perderam muitos amigos de longa data. É muito sangue frio. Agora, a “máquina cristã” estava tentando tirar os seus novos amigos.

Faria bem a alguns cristãos ficar em casa em um fim de semana e ver a série inteira da HBO “Irmãos de Armas”. Mergulhem nela. Tomem notas. Anotem palavras como lealdade, amizade e sacrifício. Entenda a frase: “Nunca deixe um homem caído para trás”.

Onde está o amor?

Eu tive dificuldade em entender por que nós, como cristãos realmente necessitávamos arrastar Ted ao altar da disciplina da igreja e deixá-lo morrer. Nós precisávamos de um desfecho limpo. Ele precisaria fazer a coisa nobre e ir embora da igreja. Ele precisava proteger nossa imagem. Quando Ted se retirou desse altar e foi para os braços de um Deus que perdoa, nós escolhemos matá-lo com o nosso desdém. Eu tive minha contribuição. Em um momento de oração silenciosa, Cristo revelou-me uma verdade brutal: a culpa foi minha. Somos chamados a deixar os 99 para ir atrás da uma. Nós devíamos ser contabilizados como os párias. Afinal de contas, nós somos aqueles que acreditam na ressurreição. De muitas maneiras eu não fui agressivo o suficiente com a aplicação do evangelho. Meu conceito de graça precisava amadurecer, crescer em músculos, dentes e mau hálito. Era necessário levar um escudo, e acima de tudo, precisava encontrar sua voz.

A Graça deve aparecer no lado da luz do dia, não apenas sussurrar sua opinião nas sombras e lugares escuros onde assinamos nosso nome Anônimo. Quando um líder cai e depois se arrepende, a graça escolhe um lado. A graça é forte. A graça é um escudo para os que não podem sair do campo de batalha. Graça é ideia de Deus. Como uma Suíça espiritual, ficamos em nosso mundo neutro, onde podemos tanto perdoar quanto julgar, mas nunca usar nossas mãos para um carinho no caído sujo. E quando nós não escolhermos um lado, o lado errado começa escolhido por nós. Crematórios passam a parecer mais higiênicos do que hospitais. Vamos mudar isso!

É claro que eu entendo que se uma pessoa não se arrepender não há muito que você possa oferecer. Mas Ted renunciou, confessou, se arrependeu, e se submeteu. Ele saltou através de nossos muitos obstáculos. Quando é que vamos ser legais com ele novamente? Quando é que a igreja vai permitir a Deus usá-lo novamente? É engraçado que nós realmente acreditamos que temos que tomar estas decisões.

O assunto Ted Haggard me faz lembrar de uma cena de Huckleberry Finn, de Mark Twain. É dito a Huck que se ele for amigo de um escravo fugitivo chamado Jim, ele certamente vai queimar no inferno. Então, um dia Huck, não querendo perder a sua alma a Satanás, escreve uma carta ao proprietário do Jim contando-lhe sobre o paradeiro de seu escravo. Depois de dobrar a carta, ele começa a pensar sobre o significado que seu amigo tem para ele, como Jim ficou vigiando à noite para que ele pudesse dormir, como eles riram e sobreviveram juntos. Jim é seu amigo e merece uma valorosa reconsideração. Huck toma consciência de que ou é a amizade de Jim ou o inferno. Então, o grande Mark Twain escreve essas maravilhosas palavras de determinação. Huck rasga o papel e diz: “Tudo bem então, eu acho que vou para o inferno.”

Que grande lição. Que grande atitude. Penso em João 15:13, “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos“. Talvez Jesus não esteja falando apenas de nossa vida física. Talvez seja sobre a vida que conhecemos, os amigos que temos e perdemos. Talvez eu mostre amor quando deixo a vida que temos em conjunto para confrontar você em uma atitude errada ou ação. Talvez nós não mostremos amor maior do que quando somos vistos com pessoas que outros consideram contaminadas. Tornar-me amigo de Ted foi um momento decisivo na minha vida, ministério e carreira. Claro, eu perdi alguns relacionamentos, mas eu duvido de que eles teriam se importado comigo em minhas quedas. Então, realmente, eu não perdi nada. Se ser amigo de Ted faz com que alguns me odeiem e me rejeitam – tudo bem então, eu acho que vou para o inferno.

*Michael Cheshire é pastor da Journey Church em Conifer, Colorado e autor de “How to knock over a 7-11 and other ministry training” (2012) e “Why we eat our own” (2013)

Tradução:

WesleyCaricCol_cViva comPara onde você está indo?paixão

Wesley W. Cavalheiro é Coach Pessoal, Profissional, Executivo, e Corporativo, com Certificação Internacional e Treinador Comportamental formado pelo Instituto de Formação de Treinadores (https://lumen4you.net/agenda/ift/). ‘Seguir’ e contatos: <www.Lumen4You.net/contato>

Um comentário sobre “Indo para o inferno com Ted Haggard

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s