Além do bojador

bojadorAlém do Bojador[1]

por Wesley Cavalheiro*

Meu tempo na vida militar-naval legou-me marcas profundas. Marcas que viriam a determinar um estilo de vida, por serem tanto cognitivas quanto emocionais.

Uma das lições que aprendi dentre as muitas deste período: para liderar com eficácia é essencial saber ser liderado, inclusive pelos liderados.

Comandar um dos navios que comandei é manter-se em constante alto risco. As situações de avarias inopinadas da propulsão junto a outros desafios de trabalho proporcionaram ao pequeno e velho barco uma tripulação de homens de ferro, com a tempera forjada no calor do perigo, malhadas, literalmente, com suor e dor. A interdependência neste ambiente gerou uma equipe. Aqueles homens foram a encarnação das palavras de Fernando Pessoa: “Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor. / Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu.

É isso! ‘Experienciar’ o sublime requer passar além da dor.

Pouco mais de um ano antes, alguns tripulantes e eu chegamos à embarcação. Desconhecidos uns dos outros, erámos um grupo de profissionais. Só isto. Nossa primeira missão foi delinear a construção de um farol no ponto mais alto de uma ilha. Duas equipes já tinham sido enviadas anteriormente e ambas relataram que não era possível. Forneceram alternativas, mas nenhuma que atendesse satisfatoriamente “ao que o chefe queria”.

Ao chegarmos à ilha, a equipe de reconhecimento desembarcou, retornando em pouco menos de uma hora. “Não dá para subir”; “a vegetação é muito cerrada; ‘galhos’ molengos, flexíveis”, “não conseguimos abrir caminho;” etc. Regressamos à Base, mas não me contentei com o resultado. Programei refazer o reconhecimento em três dias. Selecionamos vestimenta que protegessem todo o corpo (macacões, botas, luvas e capacetes) e equipamentos de mata apropriados (facões, facas, e machados afiados, serras, cordas, etc.). Ao chegarmos ao local, uma última modificação: incorporei-me à equipe. Já na borda da subida, nada falei e, simplesmente, fui… Em sessenta minutos estávamos no alto da elevação, por cima da mata, vislumbrando uma das mais belas paisagens que o olho humano pode apreciar. Às vezes liderar é isso: liderar é posicionar-se à frente para determinar. Trata-se de um dos estilos de liderança (autocrático) mencionados por Ken Blanchard e Paul Hersey.

Com o passar do tempo, na execução das sucessivas tarefas atribuídas ao navio, cada membro do grupo foi se compromissando, entusiasmando, esforçando, superando, interagindo uns com os outros de tal forma que havia ‘um só coração’, uma sinergia fluindo livre e espontaneamente, fazendo com que os resultados passassem a ser surpreendentemente excepcionais.

O estabelecimento da confiança mútua gerou que, não raro, minhas decisões provinham das sugestões e pedidos da tripulação. Eles sabiam como eu pensava e, por isso, as sugestões e pedidos eram alinhados com os valores estabelecidos, visando o bem comum e resultados efetivos, o que me proporcionava outro tipo de liderança, a democrática, que inclui a delegação. Entre o estágio inicial e este, a liderança de orientação e apoio.

Meu maior desafio – e dificuldade – foi criar dentro em mim um ambiente que favorecesse o desenvolvimento da maturidade da equipe. Mais que nunca a flexibilidade foi uma competência crítica e, desenvolvê-la, requereu inteligência emocional expressa em paciência, tolerância e, sobretudo, crença. Crença no potencial e no poder de valores universais sólidos: ao lidar com uma alma, seja apenas outra alma humana[2]; não há limites para a doação em quem se tem confiança irrestrita[3]; o sucesso é dos que ‘jogam’ o jogo do ganha-ganha[4]; – sobrepondo a realidade obscura, pobre e medíocre com que se é tentado na ilusão do “não tem jeito”, ou “o sucesso é para alguns”, ou “uns nasceram para mandar e outros para obedecer”, ou, ainda, “para uns ganharem outros tem que perder”, etc.

Ainda em Fernando Pessoa se lê a síntese, “Valeu a pena! Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. A síntese do mistério do Cristo feito humano e caminho para o que é humano tornar-se divino.

WesleyCaricCol_cViva comPara onde você está indo?paixão

Wesley W. Cavalheiro é Coach Pessoal, Profissional, Executivo, e Corporativo, com Certificações Internacionais e Treinador Comportamental pelo Instituto de Formação de Treinadores. Contatos: <Lumen4You.net>


[1] Trecho do livro “A Opção – sobre a arte de escolher caminhos e se entregar com paixão a uma missão”, do autor

[2] Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana. – Carl Jung

[3] “as pessoas não querem ser chefiadas por ‘gente boa’, mas por pessoas em quem possam confiar”

[4] Os milênios de guerra ensinam que, no fim das contas (ou no longo prazo), não existem vencedores e perdedores. Só há duas opções: ou todos perdem, ou todos ganham.

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