Escolhas e decisões

escolhasA missão estava quase completa. Tínhamos partido de nossa base para inspecionar, manter e reparar auxílios visuais à navegação.

O pequeno barco tinha vinte metros de comprimento, sete de boca (largura), e dois de calado (profundidade da estrutura abaixo da linha d’água). Estávamos nela há cerca de dezoito meses. Não éramos vinte pessoas, mas uma só pessoa. Dizem que não existem coincidências. Coube a algo, ou alguém, juntar aquelas exatas pessoas, durante aquele período, naquela mesma embarcação – é possível que a Lei do Magnetismo explique. Literalmente, estávamos no mesmo barco, e a vida de todos dependia de cada pessoa. A falha de um era a derrota de todos. Nossa tempera havia se aprimorado nas duras adversidades que havíamos enfrentado juntos durante aquele período. Entretanto, no tocante a mim, nada seria comparável ao que estava por enfrentar: a solidão do comando.

No exercício da liderança, há momentos únicos nos quais o líder fica só. A despeito dos conselhos e das opiniões que pode receber, inclusive de seus liderados mais chegados, o momento da decisão é único. É sua, e somente sua, a responsabilidade pela escolha do rumo que todos irão seguir. Em algumas situações não é exagero afirmar que há uma agonia. Penso que foi o que Jesus enfrentou no Getsemani ao orar sobre sua prisão e morte que estavam por acontecer: ele suou sangue.

No meu caso, as decisões atingiam diretamente as dezenove almas que compartilhavam comigo aquela missão, e ao mesmo tempo atingiam indiretamente vinte famílias. Nossas ações – escolhas e decisões – possuem um alcance maior do que podemos imaginar. Quando penso nisso, lembro-me da frase dita pelo General Máximus Décimus Meridius à sua tropa, personagem de Russel Crowell no filme O Gladiador: “O que fazemos aqui ecoa na eternidade”.

Durante cinquenta dias tínhamos efetuado trabalhos em mar aberto, em promontórios e ilhas. O planejamento tinha que ser preciso. Não havia alternativa: não havia “loja da esquina” para comprar material, tampouco profissionais liberais para atender emergências. Éramos nós, somente nós, e o que tínhamos. No decorrer do tempo aprimoramos os processos de tal modo que o cumprimento das metas se antecipava cada vez mais aos prazos. O prazer da realização era maior porque estávamos sempre subordinados a um fator implacável: a meteorologia. Dependíamos totalmente das condições do tempo.

A vida é feita de escolhas e decisões. O que somos hoje é o resultado das opções que fizemos ao longo da nossa vida, fossem pequenas ou grandes. O que seremos daqui a algum tempo será o resultado das escolhas e decisões que fizermos a partir de hoje. Alguém pode dizer que muitas das coisas que nos ocorrem, ou até mesmo que sofremos, foram fatalidades ou consequências de ações de outras pessoas. É verdade. Entretanto, podemos escolher como reagir a estas situações. Assim, continua sendo uma questão de opção pessoal.

Quando criança, meus pais podiam escolher entre quatro tipos de tênis para me comprar: o Conga, o Bamba de cano curto, o Bamba de cano longo, e o Kichute. Atualmente, são algumas centenas de tipos e modelos que estão à disposição dos consumidores. Naquela época, contava-se nos dedos de uma das mãos a quantidade disponível de cursos de formação em engenharia. Atualmente, são algumas dezenas de opções disponíveis aos vestibulandos, havendo, inclusive, tipos não pertencentes às ciências exatas. Do mesmo modo, no cenário corporativo e institucional, as variáveis que compunham uma situação eram relativamente simples: faturamento, despesas, mercado, pessoal, e algumas poucas considerações a mais. Atualmente as variáveis ampliaram, seja em quantidade (fatores psicossociais, marketing, cultura), seja em complexidade dos que já existiam: a política, a cultura, o mercado, a economia, os relacionamentos inter e intrapessoais. Enfim, a sociedade como um todo está mais complexa, tornando as tomadas de decisões e escolhas algumas das mais difíceis tarefas da vida.

Fazer escolhas e tomar decisões é, cada vez mais, a conjunção de ciência e arte. Ciência porque, como mencionado, a complexidade dos fatores envolvidos demanda metodologia e, não raro, tecnologia de apoio. Arte porque, a despeito da instrumentalização, o fator humano contém, intrinsicamente, elementos intangíveis e, em boa parte das vezes, imponderáveis.

Para o mal ou para o bem, fatores como os valores pessoais e/ou corporativos, os impulsos intuitivos e “atos de fé” constituem, ainda, os elementos determinantes nas escolhas e decisões com que o ser humano dá direção à sua vida e às organizações. Fazem-se escolhas e tomam-se decisões por motivos emocionais e elencam-se razões para justifica-las. Neste contexto, o que diferencia pessoas maduras de crianças não é o tempo cronológico mas a consciência plena das forças que as movem.

(texto extraído do livro “A Opção”, de Wesley Cavalheiro e disponível em www.amazon.com)

WesleyCaricCol_cViva comPara onde você está indo?paixão

Wesley W. Cavalheiro é Coach Pessoal, Profissional, Executivo, e Corporativo, com Certificações Internacionais e Treinador Comportamental pelo Instituto de Formação de Treinadores. Contatos: <Lumen4You.net/contato>

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s